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Páscoa

Páscoa

“Disse Yahveh a Moisés e a Aarão na terra do Egito: Este mês será o princípio dos meses; será o primeiro mês do ano. Falai a toda a comunidade de Israel, dizendo: Aos dez deste mês, cada um tomará para si um cordeiro por família, um cordeiro para cada casa. ... No meio da noite, Yahveh feriu os primogênitos na terra do Egito... Faraó levantou-se de noite, com todos os seus servos e todo o Egito; e houve um grande clamor no Egito, pois não havia casa onde não houvesse um morto.”

(Livro do Êxodo, capítulo 12, versículos de 1 a 30, grifos nossos)

O que é páscoa? A palavra páscoa deriva da palavra latina pascha, que por sua vez tem origem etimológica na palavra hebraica pessach (פסח), que significa passagem. Conforme o versículo 23 do livro do Êxodo que diz: “Porque Yahveh passará para ferir os egípcios;”. Porém, a páscoa é mais que uma palavra, ela também é um rito. Um rito para ser lembrado pelas gerações dos israelitas para sempre.

E o que é um rito? O dicionário Priberam define como: “Ordem prescrita das cerimônias que se praticam numa religião” e o Michaelis define como: “Conjunto de cerimônias e fórmulas de uma religião e de tudo quanto se refere ao seu culto ou liturgia. Cerimonial próprio de qualquer culto. Culto, religião, seita. Ordem ou conjunto de quaisquer cerimônias”.

A Páscoa dos Judeus

Sendo assim, podemos dizer que a páscoa é um rito judaico. Um rito que se inicia com o sacrifício, simbolizado pelo sangue dos cordeiros ou cabritos, pães ázimos e ervas amargas; pela santidade (separação/devoção exclusiva) simbolizada pela ausência de fermento e de atividades laborais; e pela purificação simbolizada pelo fogo.

Dentre outros ritos encontrados no Velho Testamento, o rito da páscoa também foi pactuado com sangue, e tinha por finalidade mostrar para os egípcios o poder de Yahveh. Conforme o versículo 23 do livro do Êxodo: “e, quando vir o sangue sobre a travessa e sobre os dois marcos, ele passará adiante dessa porta e não permitirá que o Exterminador entre em vossas casas, para vos ferir”.

“O sangue, porém, será para vós um sinal” descreve o versículo 13. Um sinal do pacto realizado entre Yahveh e seus seguidores. Pacto de sangue e com sacrifício animal.

O compromisso do pacto assumido pelos seguidores de Yahveh era o de adorá-lo e segui-lo para sempre, e o compromisso de Yahveh era fazer deste povo um vencedor. No contexto da passagem analisada, era ferir a todos os primogênitos do Egito.

Interessante é que, como vivemos em um país de cultura predominantemente judaico-cristã, não achamos estranha a história bíblica. Entendemos que os egípcios eram maus e faziam jus a esta punição terrível de Yahveh. Não estou dizendo que os egípcios estavam certos, mas não consigo aceitar a ideia de uma entidade se auto proclamar Deus, no sentido de Absoluto, e fazer distinção entre pessoas. Distinção entre judeus e egípcios, entre judeus e muçulmanos, entre brancos e pretos ou qualquer outro tipo de exclusivismo. No meu entender, se esta entidade que se auto denomina Yahveh fosse realmente Deus, possuiria um amor incondicional.

Será que aceitaríamos facilmente a mesma história contada pelos povos negros? Um rito qualquer do Candomblé ou da Umbanda com seus sacrifícios de sangue, ervas amargas, incensos e defumações.

Qualquer semelhança entre os ritos judaicos e os ritos afros não é mera coincidência, ambos baseiam-se nas mesmas realidades espirituais, portanto seguem o mesmo padrão.

Uma análise do capítulo do livro do Êxodo revela que, enquanto povo, os judeus estavam oprimidos e humilhados e, como uma resposta desesperada, buscaram no conhecimento espiritual que possuíam a realização de um pacto. Com este pacto criaram ou invocaram uma entidade chamada no capítulo 12 versículo 13 de “flagelo destruidor” e no versículo 23 de “Exterminador”. Entidade esta responsável pela morte dos primogênitos da terra do Egito onde, segundo o relato bíblico, nem os animais escaparam desta fúria.

Vale ressaltar que o que desencadeou a elaboração do pacto entre os judeus foi o sentimento de revolta que, enquanto povo, sentiam. E o que deu poder ao pacto foram as condições adversas que estavam vivendo.

Toda ação tem a sua reação, toda causa tem o seu determinado efeito ou, conforme as palavras bíblicas: “O que o homem semear, isso colherá” (Carta aos Gálatas, capítulo 6, versículo 7). Porém, na hora de colher, não colherá qualquer fruto. Colherá o fruto conforme a semente que plantou. A resposta é proporcional ao dano causado.

Os judeus foram escravizados no Egito durante 430 anos (Livro do Êxodo, capítulo 12, versículo 40). Quantas humilhações e perdas eles tiveram? Quanta opressão sofreram? Eles não tinham como oprimir os egípcios, pois os egípcios eram mais poderosos que eles. O que lhes atingiria então? A resposta é: a morte de seus primogênitos.

Concluindo, a páscoa dos judeus pessach é um pacto de sangue firmado entre os judeus e Yahveh, para que os judeus lembrassem para sempre que fora Yahveh quem os tirou da terra do Egito.

É bem verdade que estas histórias podem ter de fato acontecido, ou podem ser ilustrações, símbolos que apontam para uma realidade moral, ou mesmo a invenção de um fanático qualquer ou de pessoas mal intencionadas interessadas no poder. Independente do que seja, o importante é extrair de toda informação adquirida uma lição, algo aplicável à vida que possa gerar experiência, amadurecimento e consciência.

A Páscoa dos Cristãos

O cristianismo, que até por volta dos anos 30 a 40 da era cristã era apenas mais um movimento judaico dissidente, encontrou no recém convertido Paulo de Tarso os ideais necessários para transformá-lo em uma religião. Ou, como mesmo acusou Nietzsche, Paulo tenha deturpado os ideais libertários do cristianismo tornando-o uma religião de culpa cheia de regras. De qualquer forma, Paulo deu ao cristianismo um corpo teológico convincente, com argumentos extraídos das antigas escrituras judaicas, causando desconforto aos praticantes do judaísmo que encaravam seus argumentos como heresia e blasfêmia.

Acredito ser possível que Paulo realmente tivesse se convertido ao novo Caminho, porém entendo ser menos provável. Há também a possibilidade de o novo império, que dominara a região, diante da resistência religiosa judaica ter encontrado uma forma de enfraquecê-lo.

Como? Com a espionagem.

A espionagem sempre foi uma estratégia de guerra utilizada por muitos povos, inclusive pelos judeus. Para enfraquecer a teocracia judaica o império romano deveria possuir conhecimento de suas leis cívico-religiosas e utilizá-las a seu favor. A religião era a forma de mídia conhecida na época e como sabemos as mídias possuem o poder de influenciar os pensamentos, a personalidade e as convicções da maioria das pessoas que compõem a massa humana.

Com base neste pensamento e em outros argumentos, como o lavar de mãos de Pôncio Pilatos, significando que Roma estava isenta da condenação de Jesus, torna-se provável que a criação do cristianismo fora uma estratégia romana para reconstruir as novas conquistas do oriente médio e unificá-las em uma só religião-estado, uma teocracia, a exemplo do judaísmo. Mas sobre este possível golpe falaremos em outro momento.

Retornando à possível estratégia de espionagem romana. Compreendo que Paulo fora este espião. Utilizando-se da seita judaica conhecida pelo nome de “O Caminho”, que provavelmente dentre as muitas correntes dissidentes do judaísmo da época era a maior. Paulo, por ser judeu, possuía conhecimentos teológicos e culturais do novo povo conquistado e ao mesmo tempo possuía cidadania romana, o que o tornava um provável agente duplo.

Dentre as muitas cartas que Paulo enviou às comunidades cristãs por ele criadas. A primeira carta aos Coríntios, capítulo 5 versículo 7, a segunda parte do versículo diz: “Pois nossa Páscoa, Cristo, foi imolado”. Mas esta não é a primeira citação que se faz analogia entre o sacrifício de Cristo e o sacrifício da Páscoa. No livro de Mateus está escrito: “Sabeis que daqui a dois dias é a páscoa; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado”.

Acontece que o evangelho de Mateus foi escrito entre os anos 70 e 115 da era cristã, e a primeira carta aos Coríntios no ano 55, ou seja, é provável que o escritor do Evangelho Segundo Mateus tenha sofrido influência da obra de Paulo. De qualquer forma, a citação do evangelho não é a primeira feita sobre a relação entre Cristo e a Páscoa. Na verdade, apenas Paulo possuía conhecimento teológico para isto. Paulo inventou o cristianismo. Foi ele quem fez o cristianismo a partir de um grupo de dissidentes judeus.

Influências e verdades à parte, para o cristianismo a Páscoa significa vida nova, a passagem da morte de Cristo para a vida através da ressurreição. Segundo o cristianismo, Cristo através de sua morte trouxe salvação para toda a pessoa que nele crer, confessar seus pecados e se arrepender. Portanto, através da aceitação da morte de Cristo como remidora e expiatória para os pecados, um crente encontra vida nova, ou seja, salvação. Esta é a Páscoa dos cristãos.

Na atualidade, com apenas algumas pequenas variações de acordo com cada doutrina, em suma, é o que a teologia cristã explica e comemora todos os anos. O que, em geral, categoricamente, toda a cristandade vai explicar se lhes for perguntado o sentido da Páscoa.

A páscoa é antiga e é comemorada por diferentes povos e religiões, possuindo sentidos e ritos diferentes. Mas a verdade é que para a Páscoa realmente existir ela precisa ser celebrada, pois ela é um rito e apenas se for celebrado em toda a sua extensão e sentido estará cumprindo o seu propósito, caso contrário não passará de um feriado qualquer.

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