A provocação de que a Eucaristia católica seria um fragmento reciclado dos cultos a Dionísio/Baco e às divindades egípcias Osíris, Ísis e Hórus não é nova. Mircea Eliade já advertia que “as religiões não nascem no vácuo, mas se alimentam de tradições anteriores” (Eliade, História das Crenças e das Ideias Religiosas, 1978, p. 15). O cristianismo, ao se tornar religião oficial do Império Romano, não resistiu à tentação de absorver práticas que já eram familiares às elites e às massas.
Dionísio, Baco e o vinho que embriaga
O culto a Dionísio/Baco celebrava o vinho como veículo de êxtase e comunhão com o divino. Plutarco descreve que “o vinho é o sangue da terra, dado aos homens para que participem da vida dos deuses” (Plutarco, Moralia, séc. I). Ora, não é curioso que o cristianismo tenha transformado o vinho em “sangue de Cristo”? Coincidência? Ou apenas uma apropriação conveniente para que os romanos aristocratas não sentissem falta de suas bacanais? Como observa Burkert, “a religião grega era feita de rituais que se repetiam e se transformavam em novos contextos” (Burkert, Greek Religion, 1985, p. 223).
Constantino e a política da fé
Constantino não era teólogo, mas estrategista. Paul Veyne lembra que “Constantino acreditava sinceramente, mas também sabia que a religião era um instrumento de poder” (Veyne, Quando o Nosso Mundo se Tornou Cristão, 2007, p. 45). Ao incorporar elementos de cultos populares, o cristianismo se tornava palatável às massas e aceitável às elites. A Eucaristia, nesse sentido, funcionava como uma ponte cultural: vinho e pão, símbolos já carregados de significados pagãos, agora rebatizados com selo cristão.
Egito: Osíris, Ísis e Hórus
No Egito, o mito de Osíris envolvia morte, desmembramento e ressurreição. O corpo do deus era repartido e consumido simbolicamente pelos fiéis. Jan Assmann observa que “a comunhão com Osíris era uma antecipação da vida eterna” (Assmann, Morte e Mais Além no Antigo Egito, 2001, p. 87). A ideia de comer o corpo e beber o sangue para participar da vida divina é, portanto, muito anterior ao cristianismo. A diferença é que, no Egito, ninguém fingia que isso era novidade.
Sarcasmo acadêmico: a originalidade cristã
O cristianismo gosta de se apresentar como religião única, revelada, pura. Mas, convenhamos, a originalidade aqui é tão autêntica quanto uma cópia pirata vendida em camelô. Nietzsche ironiza: “o cristianismo é platonismo para o povo” (Além do Bem e do Mal, 1886, §62). Talvez devêssemos acrescentar: é também dionisismo para aristocratas e osirianismo para nostálgicos do Nilo. A Eucaristia, nesse cenário, é menos um milagre e mais um remix cultural.
Conclusão: entre fé e política
A provocação é clara: a Eucaristia não nasceu do nada, mas de um caldeirão de influências. O vinho de Dionísio, o corpo de Osíris e a astúcia de Constantino se encontram no altar católico. O fiel pode continuar acreditando que bebe o sangue de Cristo. O historiador, porém, sabe que está diante de uma sofisticada operação de marketing religioso. Como diria Umberto Eco, “a religião sempre soube que a melhor forma de sobreviver é reciclar símbolos” (História da Beleza, 2004, p. 112).
Referências Bibliográficas
ASSMANN, Jan. Morte e Mais Além no Antigo Egito. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2001.
BURKERT, Walter. Greek Religion. Cambridge: Harvard University Press, 1985.
ELIade, Mircea. História das Crenças e das Ideias Religiosas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
ECO, Umberto. História da Beleza. Rio de Janeiro: Record, 2004.
NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1992 [1886].
PLUTARCO. Moralia. Cambridge: Harvard University Press, 1957.
VEYNE, Paul. Quando o Nosso Mundo se Tornou Cristão. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.